Morador morreu ao puxar energia de uma rede elétrica feita pelos moradores com recursos próprios, a partir de um projeto que já havia sido aprovado e não foi colocado em prática até hoje. Moradores arriscam a vida ao fazer ligação clandestina para ter energia elétrica
Para mostrar os problemas vividos na região Norte do país, o Profissão Repórter escolheu o Arquipélago do Bailique, no Amapá, como destino. A bordo de um ‘barcohome’, o trio Nathalia Tavolieri, André Neves Sampaio e Gabi Vilaça navegaram pela foz do Rio Amazonas por dez dias e, ao chegar na região, postaram um vídeo convocando os moradores a contarem suas histórias.
Uma das pessoas que buscou nossa equipe foi Carlos Augusto, líder comunitário da comunidade Limão do Curuá e, no local, encontramos uma situação comum a muitas das ilhas do arquipélago: a falta de luz.
As poucas casas que têm energia tem gerador movido a diesel ou placas solares, mas mesmo elas passam por problemas pela dificuldade de abastecimento.
“A luz aqui dura duas, três horas, depende. Aqui eu vendo só comida que não vai para o gelo, né? Porque não tem energia e não tem como utilizar o freezer. Já queimou dois. Ele estava funcionando no motorzinho e queimou quando se foi a energia”, relembra a comerciante Dionísia Nascimento.
Para evitar esse tipo de problema a fazer com que todos tivessem acesso à luz, com o próprio dinheiro, os moradores colocaram de pé um sistema de energia clandestino, a partir de um projeto que já havia sido aprovado e não foi colocado em prática até hoje.
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No entanto, por causa desse chamado linhão, que foi desativado no ano passado, moradores se arriscam; um deles morreu ao tentar puxar a energia da rede. Edson Santos Silva deixou quatro filhos e a esposa, Jurema Silva, com quem foi casado por 45 anos.
“Ele era muito importante na comunidade. Fazia muitos trabalhos, era muito conhecido como carpinteiro. Fazia casa, lancha, rabeta, bote. O sonho dele era essa energia. Ele lutou até o fim da vida dele. O filho mais velho dele fala que ele vai lutar até o fim, porque era o sonho do pai dele”, afirma Dona Jurema.
A falta de energia na comunidade também prejudica um negócio local, a produção de óleo de pracaxi. Em assembleia de moradores, as mulheres que vivem da atividade contam que ganharam um liquidificador da Embrapa para triturar as sementes e extrair o óleo, que é vendido para a indústria de cosméticos e remédios, mas que ele nunca pode ser usado.
“Não teve energia na geração da minha avó, na da minha mãe; não está tendo na minha geração. Nunca soube o que é ter uma energia de qualidade – o básico. E não está tendo na dos nossos filhos. A gente não tinha condições antes de ter um liquidificador desse e hoje a gente pode ter. Ele está avaliado em torno de R$ 1,7 mil, mas ele está há dois anos com a gente e nunca foi ligado. A gente não consegue ser ouvido, a gente está já no desespero”, lamenta Claudiane Barbosa, produtora do óleo de pracaxi.
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Procurado para falar sobre o problema, o governador do Amapá, Clécio Luis, que assumiu o cargo em janeiro deste ano, diz que pretende resolver as questões de abastecimento de água e luz no estado com a ajuda de um programa federal:
“Estamos procurando uma solução para os problemas do abastecimento de água potável e para o abastecimento energético através de um programa federal que ainda não se implantou – nós estamos preparando as bases para ele -, que é o Luz para a Amazônia, que é através de energia solar. Maturação de um ano para a gente conseguir começar a instalar”.
Moradores arriscam a vida ao fazer ligação clandestina para ter energia elétrica em comunidade do Amapá
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