Câmera de vigilância e canal de denúncias ajudam, mas não resolvem violência nas escolas, dizem especialistas


Governo de Pernambuco anunciou o número exclusivo 197 para receber denúncias. Para especialistas, medida ajuda, mas é preciso combater discurso de ódio e promover diálogo com as comunidades. Sala de aula em escola estadual de Goiás
Divulgação/Seduc
Consideradas entre as medidas importantes do ponto de vista emergencial, a criação do canal 197 para registros de denúncias e a implantação de um protocolo para intensificar o monitoramento de casos de violência nas escolas, anunciadas pelo governo de Pernambuco, são consideradas insuficientes para evitar conflitos nas unidades de ensino, segundo avaliam especialistas ouvidos pelo g1.
O anúncio foi feito na terça (11), depois que dois ataques em escolas foram registrados em pouco mais de uma semana no país.
No dia 5 de abril, um criminoso matou quatro crianças e feriu outras quatro com uma machadinha em Santa Catarina. Em 27 de março, uma professora morreu e três pessoas ficaram feridas em São Paulo.
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“É importante destacar que essa é uma resposta da Secretaria de Defesa Social. Mas pensar na proteção de crianças e adolescentes hoje no Brasil não é uma política que responde apenas à questão da segurança, embora diga respeito a crimes”, afirmou o psicólogo especializado em criança e adolescente do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), Romero Silva.
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Na opinião de Romero Silva, o canal de denúncias deve servir de base para o monitoramento não apenas dentro das escolas, mas também no entorno das unidades de ensino.
“O 197 precisa ser um instrumento para que a sociedade faça um monitoramento da política de educação. Boa parte das escolas está em territórios que comprometem a sensação de segurança dentro do espaço físico. Mesmo que o crime não aconteça dentro da escola, afeta o bom funcionamento dela”, considerou Silva.
Discurso de ódio na internet
No entendimento do doutor em educação e professor do Centro Universitário Tiradentes (Unit-PE), Thiago Modenesi, a questão tem origem na falta de uma cultura de paz, que se disseminou principalmente nas redes sociais.
“É uma medida extremamente importante, mas que, por si só, não resolve. O problema é mais profundo e se construiu a partir do discurso de ódio que se estabeleceu no Brasil. E isso se desenrolou numa realidade muito parecida com a dos Estados Unidos”, avaliou.
Mondenesi destacou que nos últimos anos houve incentivo a uma polarização que foi se espelhando em toda a sociedade, inclusive entre as crianças. “Com o aumento do discurso machista, misógino, configura-se uma tempestade perfeita”, comenta.
Por isso, o professor acredita que também é necessário rever a relação das pessoas com as redes sociais.
“As pessoas vão para a escola para se sentirem seguras, com a intenção de aprender. E aprender é ouvir pessoas com opiniões diferentes, sendo a escola um espaço para reflexão”, afirmou.
Reconhecimento facial
No anúncio da criação do canal 197, o governo de Pernambuco anunciou também que pretende instalar um sistema de reconhecimento facial para os acessos às escolas.
Para o psicólogo Romero Silva, essa estratégia esbarra mais uma vez na necessidade de se investir na segurança da comunidade onde as unidades estão inseridas.
“Elas não são tão vulneráveis quanto parece numa dinâmica normal. Quem deseja cometer qualquer crime vai encontrar as brechas. Ou seja, se coloca reconhecimento facial ou uma cancela na entrada, mas não se cuida do perímetro urbano onde está situada essa escola”, ponderou.
Para o psicólogo, a resolução dos conflitos dentro e fora das escolas deveria partir da escuta à população que convive nesses locais.
“Para tomar as medidas mais efetivas, é preciso ouvir quem é da comunidade, quem tem os filhos que frequentam a escola, entendendo os desafios do cotidiano. Isso porque as questões excepcionais vão acontecer a partir desse contexto social que estamos vivendo”, avaliou.
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