Após recentes ataques em escolas no Brasil, professores da rede pública de Juiz de Fora temem pela segurança


As ações criminosas em SP e SC tiraram a vida de quatro crianças e uma docente. Governos estadual e federal anunciaram medidas com o objetivo de ampliar a proteção no ambiente escolar. Sala de aula da Escola Estadual Delfim Moreira, em Juiz de Fora, foto ilustrativa
Marcus Pena/TV Integração
Os recentes ataques e ameaças em escolas e creches têm causado medo em professores, estudantes e pais em todo o Brasil. Em Juiz de Fora, o g1 conversou com profissionais da rede estadual, que relataram situações vivenciadas e apreensão em relação à segurança.
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Após os casos de violência registrados em uma escola paulista e em uma creche catarinense, o governo de Minas Gerais anunciou na segunda-feira (10) que policiais militares farão visitas periódicas às instituições de ensino estaduais. Há mais de 3,5 mil escolas em todo o estado.
Um professor, que pediu para não ser identificado, que já atua em sala de aula há quase 20 anos, afirmou não ter sido vítima de ameaça, mas ter presenciado por diversas vezes situações de violência, o que ele acredita estar ligado à desvalorização dos docentes.
“Já presenciei inúmeros episódios de violência psicológica, o que é recorrente no ambiente escolar, infelizmente. Isso está muito ligado a um processo de desvalorização constante da figura do professor, ainda mais no contexto da escola pública”.
Para o professor, há uma desvalorização da escola pública de forma geral e esta situação contribui para que os todos os profissionais da educação, inclusive secretários e assistentes, se tornem vítimas potenciais quando algo não ocorre como os alunos gostariam.
“Tanto em relação às notas, quanto horários de entrada e saída. Quando alguma coisa acaba ocorrendo fora daquilo que se esperava, por um conjunto de razões que é inerente à própria escola, é muito comum o ataque com agressões verbais e, inclusive, ameaças de alunos e alunas aos profissionais da escola”.
A coordenadora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE-MG) em Juiz de Fora, Victoria Mello, lembrou ainda que o crescimento nos episódios violentos nas escolas é um reflexo do processo vivido pela sociedade nos últimos anos.
“Precisamos entender que estas ações violentas nas escolas, esses ataques, são consequências de uma sociedade violenta e com muita desigualdade social. No último período da história do nosso país estimulou muito o armamento e o ódio contra os professores”, completou.
‘Proteção Escolar’
A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) iniciou uma operação chamada de “Proteção Escolar”. O objetivo é proteger o ambiente escolar e garantir a segurança e bem-estar a estudantes, professores e demais profissionais da educação em todas as regiões do estado.
PMMG lança em Belo Horizonte operação para tentar proteger e ambiente escolar
Ernani Fiuza/TV Globo
No lançamento da operação, em Belo Horizonte, o capitão Cristiano Araújo, do Centro de Jornalismo Policial (CJP) da PMMG, afirmou que todas as instituições de ensino das cidades mineiras vão receber visitas de policiais militares.
“[A visita] tem o objetivo de levar dicas de segurança, conscientização a respeito de comportamentos que podem ser adotados ali pelos integrantes da comunidade escolar, que vão favorecer a autoproteção desse ambiente”.
O capitão destacou ainda que o trabalho da PM será intensificado no sentido de fomentar as redes de proteção.
“Consiste basicamente em conectar essas pessoas, por meio inclusive de plataformas digitais, grupos de WhatsApp, para que qualquer informação relevante seja relacionada à proteção da escola circule de forma ágil e chegue para a Polícia Militar o mais rápido possível, e a gente consiga fazer as intervenções necessárias”.
Policial conversa com estudantes durante lançamento da operação em São João del Rei (MG)
Polícia Militar/Divulgação
Detalhes quantos ao número de policiais destacados, se eles ficarão nas portas ou no interior das escolas, e se houve um levantamento anterior indicando as escolas mais vulneráveis a atos violentos, considerando edificações, professores e alunos, não foram informados.
‘A escola não é uma ilha isolada’
Durante as entrevistas ao g1, tanto o professor quanto a coordenadora do SindUTE-MG fizeram questão de lembrar que “a escola não é uma ilha isolada”, e que tudo que acontece na sociedade acaba por ter reflexos também no ambiente escolar.
“A escola não é uma ilha isolada.Todas as tensões e desigualdades que estão presentes fora da escola de alguma maneira se manifestam dentro do ambiente escolar. Porém, nossa capacidade de ação, enquanto trabalhadores do ambiente escolar, se limita a este espaço. Dessa forma, a gente lida com as consequências e não com as causas que originam esse problema [da violência]”, destacou o professor.
“A escola não é uma ilha isolada! Se a sociedade está violenta, se a violência é estimulada, se o preconceito e o ódio a determinado segmento da sociedade são estimulados, principalmente e sobretudo pelas autoridades, a escola não fica isenta disso, ela sofre essas consequências”, ressaltou a coordenadora do SindUTE-MG.
Victoria Mello frisou ainda a importância de que as escolas tenham uma infraestrutura adequada e que promova o bem-estar dos profissionais de educação e dos estudantes. Entre as medidas citadas por ela, está a colocação de porteiros.
“Nós precisamos de porteiros nas escolas, não de policiamento, não de polícia dentro da escola. A escola é um espaço pedagógico, mas porteiros, que estejam bem preparados, nas portas das escolas. E precisamos de políticas públicas para as famílias dos alunos”, finalizou.
Canal de denúncias
O Ministério da Justiça criou na última semana um canal de denúncia específico para combater massacres e ataques nas escolas. O canal pode ser acessado no endereço “https://www.gov.br/mj/pt-br/escolasegura”.
Flores em homenagem às vítimas do massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano
Glauco Araújo/g1
A medida faz parte do início de um planejamento de política nacional do governo Lula, chamada de “Operação Escola Segura”, para dar resposta aos casos de massacre que ocorreram em São Paulo (SP) e em Blumenau (SC).
As ações criminosas tiraram a vida de quatro crianças e uma professora.
Nova política nacional
Um grupo de trabalho foi criado para criação de uma nova política nacional e conta com o apoio de vários ministérios, como Educação e Direitos Humanos. Além do canal de denúncia, outras propostas estão sendo avaliadas pelo grupo, tais como:
fortalecimento do Programa Saúde na Escola;
campanha de comunicação para desestimular atos de violência;
repasse de recursos para que escolas ofereçam treinamentos a diretores e professores para mediar conflitos junto da criação de um protocolo para evitar os casos;
lançar edital para passar recursos estados e municípios para fortalecer rondas escolares;
trabalho de inteligência nas redes sociais pelos centros integrados regionais para apurar grupos que estimulam intolerância;
regulamentação das plataformas digitais no Brasil;
fortalecimento da política psicossocial para viabilizar tratamento de alunos com transtornos mentais;
plano de ensino integral que será apresentado pelo governo.
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